repete roupa!: semana 39 - mas você gosta de moda e é feminista?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

semana 39 - mas você gosta de moda e é feminista?

cena da série "american crime story", em que marcia clark, advogada extremamente hábil e competente, é exposta e ridicularizada em tablóides por seu corte de cabelo (e isso aconteceu de verdade)


moda é uma forma de expressão magnífica. há muitos que discordem, mas eu acredito que moda é uma linguagem, que nossas roupas comunicam coisas, e que, assim como outros tipos de linguagem, um mesmo significante tem significados diferentes que são atrelados a cultura local, história, dinâmicas sociais....

uma minissaia no rio de janeiro é lida de maneira diferente do que uma minissaia na palestina. o significado que damos culturalmente a peças de roupa muda com o tempo, assim como todo tipo de comunicação muda conforme mudam dinâmicas sociais. usar batom vermelho já foi associado a prostitutas, depois a artistas e boêmias, e agora é meio que um padrão da moça que lê blog de moda e beleza. salto alto já foi sinônimo completo de feminilidade e elegância, e hoje, pelo que eu observo, foi substituído por sapatos confortáveis que nos transmitem a mensagem de que conforto também é elegante e feminino. eu posso usar uma calça rasgada com tênis e camiseta de banda, ou posso usar uma calça rasgada com salto fino, bolsa chanel e camisa, e a mensagem da calça rasgada vai ser diferente nos dois casos. e, nos dois casos, a mensagem continua mudando se eu estiver usando essas roupas no centro de são paulo, ou no interior de minas, ou em marrocos - do mesmo jeito que um joia com o dedão é algo positivo onde eu vivo e pode ser algo negativo em outras comunidades. fato é que tanto o joia quanto a calça jeans rasgada tão comunicando alguma coisa, e mensagem pode ser recebida de maneiras diferentes que dependem do repertório cultural, social e histórico de quem recebe a mensagem.

a questão com moda é que é uma das poucas (senão a única) formas de expressão em que as mulheres tem mais liberdade que os homens. isso não é porque moda é, essencialmente, feminista. isso acontece porque vivemos em uma sociedade em que a mulher tem, principalmente, valor ornamental. nós temos mais ferramentas de moda e beleza porque nosso papel social é nos fazermos bonitas, bem vestidas, elegantes, o que for. nós somos mais valorizadas por nossa aparência do que por nossos feitos.


mas ainda assim, é indiscutível que nós, mulheres, temos mais margem, mais variedade e mais opções de expressão visual através de roupas do que homens. e mesmo que as motivações disso sejam sexistas, o fato de termos essa liberdade é ótimo. a nós é permitido um leque muito maior de cores, silhuetas, tecidos, acessórios, estilos de cabelo e maquiagem.... existem categorias de roupa feminina que são socialmente inaceitáveis para homens. e, sim, eu sei que isso está mudando, que tem gente se esforçando pra esses estigmas serem extintos, sei que tem homem usando saia e vestido e maquiagem, mas me parece óbvio que o homem padrão - hétero, cis, branco - ainda está muito limitado em suas opções de expressão visual através de roupa. enquanto a mulher já vem assimilando elementos do vestuário masculino há pelo menos um século, e conseguimos trabalhar bem com silhuetas, cortes e peças de roupa masculinas sem que haja estranhamento ou sensação de "algo tá errado", o homem que tenta assimilar peças e silhuetas femininas ainda é visto com certa aversão: pode ser ridicularizado, e às vezes se depara com repúdio e ódio.

é claro que, novamente, as razões para isso são sexistas: masculinidade é tomada como algo admirável e que merece ser imitada e reproduzida, enquanto feminilidade não.

mas o ponto que fica é que ainda temos mais liberdade de expressão através da moda do que os homens. moda é uma forma de expressão intrinsecamente feminina, e não é a toa que é considerada por muitos como algo fútil e superficial. nós somos desde pequenas incentivadas a valorizar, cuidar e melhorar nossa aparência, e aí somos taxadas de fúteis por fazermos isso. a mensagem que garotas recebem desde muito cedo é de que aparência é importante, para então aprendermos que se preocupar com a aparência é superficial e supérfluo. a mulher que gasta tempo demais com mecanismos para cuidar de sua beleza é criticada, a mulher que gasta tempo de menos também. e pode ser sutil, mas é definitivamente machista que uma das poucas formas de expressão em que temos mais liberdade e poder é considerada trivial e superficial.

e não é a toa que cada vez mais percebemos que moda é um meio de comunicação entre mulheres. eu tenho 5000 seguidores no instagram, dos quais 98% são mulheres. e esse é o caso com quase todo perfil que trata de moda e estilo: nós não estamos nos vestindo para comunicar algo aos homens. estamos nos vestindo para nos comunicar com outras mulheres. há uma conversa silenciosa quando duas mulheres cujos estilos são claramente distintos e originais passam uma pela outra na rua. há uma conversa silenciosa quando eu passeio por contas no instagram de mulheres cujos estilos eu admiro e me inspiram. existe um reconhecimento mútuo, quase um clubinho secreto, uma troca de olhares entre mulheres que querem expressar quem são através de suas roupas. estamos conversando umas com as outras. eu já parei mulheres na rua pra elogiar suas roupas, já iniciei conversas, na vida real ou virtual, com mulheres apenas porque as roupas delas me comunicam algo. tem muito pouco, senão nada, a ver com o olhar masculino.

o site de moda que eu mais admiro no mundo, man repeller, começou com essa premissa: de que nossas escolhas de vestuário não visam agradar ou atrair o sexo masculino. minha relação com minha sexualidade tem pouco a ver com minha relação com roupas. minha auto-estima está pouquíssimo atrelada com a opinião de homens sobre o que eu visto ou como eu me arrumo. eu me visto pra quem vai entender minha mensagem - eu me visto pra outras mulheres.

e, claro, não há problema em não se interessar por moda. cada um se identifica com os meios de comunicação, formas de expressão e arte que lhe forem apropriados. se suas roupas não comunicam nada além de que você se vestiu apenas pra não estar pelada, tudo bem, mas é importante saber que elas estão comunicando algo. e que há olhares julgando sua capacidade, inteligência e profissionalismo a partir de sua aparência. eu, particularmente, prefiro que minha mensagem visual seja mais intencional do que acidental.

mas quando alguém que não se interessa por roupas acredita que o sistema de moda é inteiramente fútil e superficial.... quando alguém não se interessa por roupas e rotula mulheres de fúteis e superficiais porque elas gostam, gastam tempo, dinheiro e energia com moda.... aí a gente tem que conversar. e aí eu vou te perguntar: será que esses seus rótulos não provém de uma posição social machista? será que não tá faltando um pouco de auto-questionamento aí? da onde vem essas suposições? por que a gente tende a achar que se interessar por moda é sinônimo de futilidade? e por que ao mesmo tempo atrelamos as capacidades e habilidades de uma mulher com como ela está vestida ou maquiada?


***

usei, no início do texto, a imagem dos tablóides da marcia clark (interpretada pela magnífica sarah paulson), porque algo do que eu pontuei aqui fica tão claro na série: a mídia inteira a ridiculariza, a julga, a mede, pelo seu cabelo, pelas suas roupas, pela sua postura pouco feminina. pouco suave. o mundo inteiro quer que ela pareça mais mulher, mas não que ela seja mais mulher - ser mais mulher significa ter filhos, ter horário pra ir pra casa, ter responsabilidades domésticas das quais o mundo corporativo e a mídia não querem falar. mas ainda assim ela precisa parecer feminina, usar roupas de cores claras, ter um cabelo que o público aceite. pensei muito nos tablóides publicando fotos do corte de cabelo de uma advogada extremamente competente, porque uma mulher precisa ter o cabelo certo para ser valorizada, para que seu trabalho tenha alguma relevância. pensei muito na mídia julgando, expondo e apontando o dedo para uma mulher que precisa ir pra casa cuidar dos filhos, mas não vai pra que seu trabalho possa ser comparável ao trabalho de um homem. a mulher ainda pode ser e é ridicularizada apenas por ser mulher. ser mulher é uma piada. 

5 comentários:

Anônimo disse...

Texto Nota 1000.

Bruna disse...

Excelente reflexão!

Daise Daiane disse...

Que inteligência! Que texto!

Anônimo disse...

CADE CURADORIA DO TED TALKS TE CHAMANDO PRA PALESTRAR????
PRECISO.

(eu teria feito um comentário melhor, mas minhas palavras não são tão bonitas quanto as suas pra expressar o que sinto lendo esse texto. queria materializá-lo, carregar pra cima e pra baixo, possivelmente dormir abraçadinho.)

Beatriz disse...

Foi você quem me ensinou que moda não é fútil. Eu era uma dessas que achava a coisa mais banal do mundo, e graças a você mudei completamente minha visão. Suas reflexões acerca disso sempre me enriquecem. <3