repete roupa!: semana 43 - mas você parou de comprar livros? (ou: ainda sobre não gastar dinheiro e aprender a ter o suficiente)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

semana 43 - mas você parou de comprar livros? (ou: ainda sobre não gastar dinheiro e aprender a ter o suficiente)

eu amo livros, gente.

amo livros; fui estudar letras porque passava pelo menos 50% do meu tempo vivendo dentro de livros, quando eu era criança às vezes de repente eu olhava em volta e todas as amigas com quem eu tava brincando tinham desaparecido - na verdade todo mundo tinha ido brincar de outra coisa em outro lugar e eu nem percebi porque tava com a cara dentro de um livro.

em casa meus pais me incentivavam, me davam livros da biblioteca deles pra eu ler, e eu aprendi rápido que pra uma pessoa ser gostável ela tinha que ter livros. meus pais torciam a cara (e eu também) cada vez que eu voltava da casa de uma amiguinha e dizia que não havia um único livro dentro daquelas paredes. e quando o único livro que eu avistava era algum best seller do momento - paulo coelho, dan brown, crepúsculo, sei lá. porque não adianta ter QUALQUER livro, isso eu aprendi também.

o legal é ter literatura, cânone, fitzgerald e a amiga genial e talvez um ou outro murakami. o legal é ter livro do elias cannetti (mas não me perguntem se eu jamais terminei de ler). o legal é ter machado de assis, não só a capitu, mas principalmente o brás cubas e algum livro de contos também. é legal ter lido érico veríssimo, hemingway e o morro dos ventos uivantes.

eu, na adolescência, comecei também minha coleção - puramente cultural, nada consumista - de livros. eu ia a sebos que vendiam maravilhas por 3 reais e voltava carregada. comprava mais do que eu tinha tempo pra ler, porque o importante é ter o livro pra que quando eu tivesse tempo, ele já estivesse lá. já na vida adulta, frequentando a faculdade, ia na feira de livros da usp e gastava centenas de dinheiros, comparava minhas compras com a dos meus amigos, fazia com eles a cara de sofrimento de quem sabe que há pouca vida pra tanta cultura - a gente compra livro já sabendo que alguns deles jamais serão lidos.


meu ponto mais alto do auto-controle foi no começo de 2016, na livraria cultura, quando abri mão dos 10 livros diferentes que tava querendo comprar e levei só a trilogia oryx&crake da margaret atwood. sim, levei os três de uma vez, porque eu já sabia que amava a autora, e eu devorei os três livros de cabo a rabo antes de pensar em comprar outro.

em julho do ano passado comprei um kindle e descobri o maravilhoso mundo dos livros pirata. sim, gente, me desculpem, mas eu continuo amando pirataria. eu amava pirataria quando ela me permitia comprar cds do backstreet boys por 5 reais na feira, continuei amando a pirataria quando graças a ela baixei a discografia inteira do dr dog e da fiona apple, segui amando pirataria durante todos os filmes e séries que baixei de graça, e sigo aqui, no amor total, baixando livros gratuitamente.


pra quem não é de pirataria (admiro), o kindle ainda é melhor do que comprar livros de papel. paguei 150 reais no meu kindle, preço que pagaria por três ou quatro livros novos. e dentro do kindle eu possuo 110 livros ainda não lidos, pelos quais não paguei nada - e nem todos foram baixados ilegalmente!

os ebooks são naturalmente mais baratos do que os livros de papel (embora eu ainda ache alguns deles muito caros pra algo que nem existe materialmente), e existem diversasssssssss promoções da amazon com livros por 1 real, 5 reais, 10 reais, e, pasmem, livros gratuitos também. então mesmo pra quem quer continuar consumindo livros pelos caminhos corretos, o livro digital vale muito mais a pena.

outro fator que me fez repensar meu consumo de livros foi o tal do destralhe que acaba acontecendo quando a gente decide ter uma vida, mesmo que de leve, mais minimalista. quando vim morar sozinha, eu tinha em torno de 300 livros. semana passada fiz a última grande limpeza das minhas estantes, e esses são os livros que sobraram.


na prateleira de cima, os livros que amo e vezenquando gosto de reler (e que não tenho no kindle). na prateleira de baixo, quadrinhos, livros infantis, cds e dvds. vocês tem noção de quão mais fácil a vida fica com menos livro que a gente guarda só pra dizer que tem? fica mais fácil limpar, guardar, organizar, mover se for necessário. é mais fácil de achar o que eu quero, afinal, com poucas coisas é simples lembrar o que tenho e onde está. e vejam bem, não é que eu não gostasse dos outros quase 300 livros que eu tinha. alguns eu tinha lido e amado, alguns eu tinha lido e respeitava, alguns eu não tinha lido mas achava que ia ler um dia, alguns eram livros dos meus pais que eu amava e decidi guardar comigo, alguns eram compras de outros países que eu guardava pela lembrança, alguns eram edições antigas e baratas, alguns eram edições caras e bonitas da cosac&naif..... me livrei de tudo. devolvi pros meus pais o que era deles, doei o resto pra biblioteca da escola onde trabalho. agora tenho, em papel, apenas livros que amo e releio e não posso substituir por livro digital.

é muito fácil, pra quem ama ler, disfarçar consumismo com cultura. é um discurso muito lindo o do não estou consumindo um produto, estou consumindo alimento pro cérebro. mas não é real. a gente compra livro porque ele é um produto pra gente consumir em exagero, sim. grandes livrarias como a cultura não estão lá pra suprir nossas necessidades intelectuais, elas tão lá pra encantar a gente com aquelas paredes maravilhosamente forradas de livros e nos convencer a comprar mais deles do que leremos. as editoras não querem contribuir com nosso repertório cultural, elas querem vender livro, vender produto, lucrar e fazer dinheiro. todo um cuidado com capa, design, formatação, fonte - pra convencer a gente a comprar. e tudo bem que nem sempre se compra um livro por sua aparência, mas tantas vezes sim. e as editoras e livrarias sabem disso, e é por isso que tanto livro é republicado em edições maravilhosas, de capa dura, página dourada, introdução por autor famoso, ilustrações por artista fodão, reedição com comentários do autor (que provavelmente está morto e é isso que faz das suas anotações algo que vale ser vendido). livro é produto de consumo, sim. livro está nas dinâmicas de consumo desenfreado, sim. e muitas vezes de maneira pior do que roupa, cafeteira nespresso, iphone: porque a gente é convencido de que comprar e ter livros nos faz pessoas melhores. a gente se convence que faz parte de um grupinho especial de gente que lê, e isso faz do nosso consumismo ok.

não é ok.

cria lixo, desperdiça água (e papel, né), faz com que acumulemos coisas das quais não necessariamente gostamos ou precisamos, e convence a gente a comprar sempre mais. além de livro ser caro demais prum treco que é feito há tanto tempo mais ou menos do mesmo jeito.

existe uma diferença entre gostar de LER e gostar de comprar livros. eu gosto de ler. gosto da experiência da leitura, gosto de ser transferida pra universos e vidas que de outra maneira eu jamais compreenderia. então, pra mim, o kindle é não apenas satisfatório como essencial. e o mais legal é que se eu termino um livro no kindle, eu posso imediatamente começar outro - sem implicar que eu tenha carregado um segundo livro na bolsa para o acaso de eu terminar o primeiro. e eu também posso levar todos os meus livros comigo para qualquer lugar, e escolher qualquer um deles para ler a qualquer momento. também me ajudou a superar aquela "culpa do leitor" que nos obriga a terminar livros que a gente na verdade tá odiando - no kindle eu simplesmente passo esses livros pra pasta "fuén" e sigo minha vida. (a amiga genial tá lá na pasta fuén. o jonathan franzen também. e outros famosinhos ou não com os quais não consegui me conectar).

quando eu comecei esse projeto, parte do processo foi olhar ao meu redor e entender quais das minhas coisas eu tinha apenas "pro outro". pro outro ver. pro outro achar que eu sou inteligente. pro outro achar que eu entendo de literatura. pro outro me achar mais legal, mais interessante, mais qualquer coisa. a coleção de livros se encaixou aí: centenas de coisas que eu tinha pra que quando alguém me visitasse, houvesse algo pra admirar. agora eu tenho só os livros que EU ainda quero ter.



***


ps1: e esse post não foi pago pela amazon e pelo kindle, ok, eu só realmente amo o kindle, acho revolucionário, acho lindo, acho realmente o futuro do livro. tá mais do que na hora da gente se desapegar do papel, amigos, que não é nem elegante ficar cortando esse monte de árvore. (also, o kindle ACENDE, meus amigos, isso quer dizer que eu posso ler até no escuro, no meio da floresta, perdida após a queda de um avião) (por outro lado, com o livro de papel eu poderia fazer uma fogueirinha - ou até usar as páginas pra forrar minha roupa e me aquecer).

ps2: escrevi esse post inspirada por um comentário no meu post sobre minha proibição de comprar, que dizia que livro e cinema não é produto, é cultura. também não vou ao cinema, e acho que cinema é ainda pior que livro: os preços são abusivos (desnecessariamente: os preços são altos porque existe quem pague, não porque é o preço que aquilo vale), e a grande maioria dos cinemas passa os mesmos enlatados marvel explosão comédia-amorzinho oscar hollywood (nada contra, tenho até amigos que são, mas sigo aqui com a boa e velha pirataria). sim, há cinemas que passam filmes alternativos, indies, estrangeiros, mas continuo achando o preço abusivo e ainda prefiro baixar e assistir no conforto da minha casa. e estudei letras e sou a chata das estratégias narrativas, acho tudo óbvio e previsível e sempre saio do cinema achando que a experiência não valeu o gasto. também acredito MUITO no poder político do nosso dinheiro. a gente reclama muito: que o cinema é caro, que as roupas são caras e de pouca qualidade, que o café de cápsula é caro, que show são caros. a única maneira de mudar isso é não consumindo. se a gente reclama mas segue comprando, segue pagando as taxas e impostos, segue consumindo supérfluos, o recado que damos é "tá caro, mas tudo bem". quando a gente pensa melhor como e onde usamos nosso dinheiro, se gastamos só com o que acreditamos valer a pena, pouco a pouco as lojas e empresas com preços abusivos - ou políticas trabalhistas abusivas - vão entender o recado. a única pessoa que pode mudar o jeito que consumimos é o próprio consumidor. somos nós.

ps3: não achei o autor ou autora da ilustração no começo do post, se alguém souber, por favor me avise!

3 comentários:

Carol disse...

mel, um ebook pode ter um preço (que às vezes não é tão barato assim em relação ao impresso) porque a cadeia de profissionais que envolve a criação de um livro é imensa: autor, editor, preparador de texto, revisor, designer, lojista, etc e etc. um livro não dever ser precificado apenas pelo que vale sua impressão.
acho que aí entra o consumo consciente, as coisas não deveriam necessariamente custar menos. mas, comprando menos das coisas que não precisamos, teríamos dinheiro pra investir consciente em algo que realmente seja relevante pra gente, né? seja roupa, livro, uma experiência.

mel disse...

carol, acredito que para além de comprar menos do que não precisamos pra podermos gastar em coisas relevantes, tudo é uma escolha.
eu escolho não comprar roupa em fast fashion ou loja de shopping e de marcas que lucram com trabalho escravo, baixa qualidade de vida de seus funcionários e não fiscaliza as fontes de sua matéria prima. e escolho piratear livros, músicas e filmes. tem gente que escolhe pagar 60 mangos num livro novo na livraria cultura e não se importa de financiar trabalho escravo em suas outras compras. (o livro não vale isso, a maior parte desse valor é imposto e lucro da loja - pouquíssimo vai pra toda essa cadeia de produção que você mencionou, e é por isso que as vendas de livros são consideradas pelo seu volume imenso. um escritor rico e bem-sucedido é um escritor que conseguiu vender livro BAGARAI, certo? porque tão pouco daquilo vai pra ele. eu compro livros, zines, fotos de amigos e amigas, de coletivos, de gente pequena, porque sei que foram eles que produziram e o dinheiro vai, realmente pra quem trabalhou na feitura daquele objeto. também acho essencial incentivar e ajudar artistas pequenos, gente que também tá na contra-mão do consumo e da maneira de trocar bens e informação. eu não compro livro em livraria).

outra coisa é que minhas questões com pirataria são bem ideológicas (sei que gente no processo é prejudicada financeiramente, mas acho que olhando a "big picture" das dinâmicas sociais - muitas das quais queremos derrubar - a pirataria, especialmente de informação, é bem necessária). livros são um produto CARO, elitizado. isso quer dizer que PALAVRAS e INFORMAÇÃO estão na mão apenas de quem tem dinheiro para comprar livro. palavra e informação, você há de concordar, são poder. a pirataria de informação, de livro, de filme e de música é essencial pra que se quebre esse ciclo de elitização da informação e da cultura. eu acredito em pirataria como um movimento que ajuda a mudar o capitalismo e a maneira como consumimos. e acredito em pirataria como uma revolução em uma sociedade em que só alguns tem acesso a coisas essenciais pra viver, entre elas informação, cultura e conhecimento.

juliana braga de oliveira disse...

O que dizer desse post que mal conheço, e ja considero placas?! Cara é isso mesmo! Tenho um monte de livro que nunca li, sorte a maioria é de sebo. Adotei a seguinte postura, se não for daqueles livros q mudam vidas eu passo pra frente. Não quero ficar nessa de mostrar conteúdo, eu n tenho esses fetiches livrescos. Raramente releio,então n faz sentido acumular.