repete roupa!: coisa de menina

terça-feira, 24 de abril de 2018

coisa de menina



talvez vocês já tenham visto essa foto e saibam quem é a adorável criança retratada. talvez não. mas repara bem, vai. repara bem nesse cabelinho com franjinha, nesse sapatinho boneca, nesse chapéu emperiquitado, nesse vestido cheio de babados.

agora pensa comigo: quando uma criança faz xixi ou cocô quem tem que limpar é outra pessoa. alguém vai ter que tirar a roupa daquela criança, lavá-la, trocar a fralda. bem mais fácil fazer isso se a criança em questão está de vestido, certo? pois até o século XVIII esse era o senso comum cultural: uma roupa de criança tem que ser prática para trocá-la e fácil de lavar: toda criança, até mais ou menos os 7 anos de idade, usava vestido branco. VESTIDO BRANCO.
não se sentia a necessidade social de distinguir crianças pelo seu gênero - gênero era coisa de adulto, porque caracterizava seu papel na sociedade e no casamento. criança não casa, criança não tem papel social ainda, criança é tudo igual. as calças compridas, inclusive, eram consideradas inapropriadas para crianças porque representavam o gênero e o sexo masculino - ou seja, calças compridas eram consideradas roupas SEXUALIZADAS demais para crianças. não importava se era menino ou menina: roupa de criança era vestido branco.

só que acontecia o seguinte: a mamãe comprava ou fazia os vestidinhos brancos de seus filhos, e a mesma roupa passava por todossss os irmãos e irmãs. e aí as empresas, as grandes magazines que começavam a surgir e os comerciantes encasquetaram: como que a gente faz essas mães comprarem roupinhas novas toda vez?

e foi assim que as lojas começaram a incluir cores no vestuário das crianças, pra que a mãe que tivesse irmãos de sexos diferentes sentisse que era necessário diferenciá-los com roupas diferentes. o mais curioso disso tudo é que até meados do século XIX a cor considerada ideal para os meninos era rosa: uma cor forte, vibrante e mais DECIDIDA. para as meninas, sobrou o azul, considerada uma cor delicada e frufruzenta. NÃO TÔ NEM BRINCANDO, GENTE.


pra entender melhor esse rolê, a gente precisa lembrar que nem sempre roupa e vaidade foi um treco feminino. essa drag retratada na ilustração é louis xvi, maridão de maria antonieta, e notoriamente conhecido por mandar sua corte trocar de roupa várias vezes por dia, onde já se viu usar a mesma roupa o dia todo, que pobreza. então aquela fama de fútil, esnobe, consumista e escrota da maria antonieta, vejam bem, não é que ELA era assim. é que ser assim era a norma. (vamos lembrar também que eles eram todos CRIANÇAS, não é mesmo, o que mais a gente pode esperar quando colocamos um moleque mimado de 15 anos pra governar um país)

vocês podem ver pelas vestimentas do rapaz que ele gostava de se enfeitar. e não apenas ele, como todos os cavalheiros e damas da corte: se arrumar era sinal de que você tinha dinheiro pra comprar tecidos coloridos, pedrarias, veludos, jóias. e PERDER TEMPO se arrumando e trocando de roupa era sinal de que, ora pois, você era um nobre com afazeres mais importantes do que TRABALHAR. trocar de roupa e pensar em beleza era mais importante e mais nobre do que trabalhar.

quanto mais cor e mais frufru, maior o seu status e sua importância social. e é por isso que os homens nobres se enfeitavam e eram assumidamente vaidosos, enquanto o resto do povão se vestia de cinza e preto porque era as coisa feia que dava pra comprar

isso tudo muda quando a burguesia passa a ser a classe dominante e a ideia de nobreza superior cai. os burgueses eram trabalhadores, e pra quem trabalha não tem essa aí de ficar se enfeitando. e assim se enfeitar adquiriu conotação negativa - e foi uma atividade renegada às mulheres, que ficavam em casa e, portanto, "não trabalhavam" e tinham tempo pra pensar em banalidades como roupas e cores. macho não perde tempo pensando em COR.

e passamos a acreditar que o vestir era uma experiência diferente para o gênero masculino e feminino.



até a revolução francesa, o que distinguia as pessoas era sua classe social. a sociedade já era patriarcal, mas era mais importante distinguir socialmente os ricos dos pobres. a distinção se dava claramente pelas roupas - os nobres com seus tecidos vermelhos, azuis, roxos, seus veludos e suas pedras preciosas - homens E mulheres. quem não tinha dinheiro com tecidos grossos e sem cor.

quando a burguesia assume posição dominante, a diferenciação deixa de ser de CLASSE e passa a ser de GÊNERO. as diferenças de vestuário passam a indicar uma separação de gênero: para os homens, cores sóbrias, e calças compridas, que ressaltam a silhueta "bifurcada" das pernas e valorizam a movimentação. para as mulheres, os restritos vestidos com camadas, corsets, crinolinas.... e essa estética passa a ser a dominante em qualquer classe social. então não importa se a gente é pobre ou rico, a gente SEMPRE consegue distinguir um homem de uma mulher.

essa distinção passa a ser incrivelmente mais importante do que a distinção pelo dinheiro ou pelo poder - especialmente porque estabelece uma relação de poder em todas as eferas sociais. então, mesmo se você é um homem pobre, o status de ser homem já te dá certo poder dentro da sua própria micro-dinâmica social. um homem pobre pode estar abaixo de outros homens mais ricos, mas sempre estará acima de alguma mulher

não é louco, isso? antes da revolução francesa, um homem pobre era apenas: pobre. e portanto invisível. agora, pobres ou ricos, os homens trabalhadores sempre poderiam se unir como um grupo coeso e de interesses comuns.

na pintura de gwen john de 1910 (chamada " retrato de um casal burguês"), isso fica claro: se tirássemos o pelo facial do homem, ainda assim conseguiríamos dizer quem é o homem e quem é a mulher - as cores e os volumes das roupas deixam isso claro. caso houvesse uma pintura semelhante de um casal da corte francesa do séc XVIII, a distinção seria mais complicada: tanto o homem quanto a mulher estariam maquiados, de peruca, cheios de babados, tecidos bordados e jóias.


conforme passamos a nos vestir especificamente para distinguir gêneros, ficou cada vez mais urgente que os gêneros fossem distinguíveis desde cedo. isso foi tanto uma pressão social, da cultura vigente, quanto uma pressão mercadológica: o capitalismo já se estabelecia como sistema em que produção e consumo constantes seriam imprescindíveis, e isso significa criar necessidades.

as magazines no século XIX passaram a usar cores nas roupas de criança para que as mães achassem que precisavam comprar roupas novas para diferenciar suas crianças do sexo feminino e masculino, e aos poucos isso se estabeleceu como uma tendência. embora inicialmente se considerasse rosa uma cor mais forte e ideal para os meninos, a verdade é que a atribuição de cores a gêneros é completamente aleatória. lojistas passaram a adaptar a cor ideal para meninos ou meninas de acordo com o que vendesse mais em sua região - havia lugares em que a lorota colava mais se as cores eram invertidas.

em 1927 a time publicou essa tabelinha aí, com quais lojas de quais cidades consideravam qual cor a ideal para cada gênero. dá pra ver que era bem dividido, mas das três grandes lojas de departamento de manhattan, duas concordavam que azul era melhor para meninos. e nova york era a capital que ditava as tendências do país inteiro.

mas a coisa não pegou fácil assim não.


num trecho do great gatsby um dos personagens, surpreso com a fama do protagonista, exclama que gatsby não pode ser de oxford - uma universidade frequentada por famílias tradicionais cuja riqueza vinha de algumas gerações. e como o cara sabe que o gatsby não é de uma família tradicional, não frequentou oxford, e que é um "novo rico"? porque ele ainda usa um terno cor-de-rosa, cor que indica uma certa extravagância de quem quer ostentar riqueza. todos sabem que um homem sério da sociedade usa cores sóbrias, não cores exuberantes que chamam atenção desnecessária.

vejam bem, rosa era uma cor meio bad não porque ela era feminina, mas porque ela remetia ao exibicionismo dos homens e mulheres da corte - aquela gente fútil e que perdia tempo se emperiquitando porque ninguém os ensinou a trabalhar pra ganhar dinheiro. saca? então o problema da cor rosa, inicialmente, não é ser de menina. é representar valores de relação com dinheiro e riqueza que não eram mais considerados apropriados.

mas ao mesmo tempo, eram os anos 20, o pós-guerra (de uma guerra cujo fim estava rodeado de esperanças), as mulheres tinham acabado de se livrar dos corsets e espartilhos e cabelos longos (e aprendido a depilar as axilas, porque nem toda mudança foi legal), e ninguém tava assim super preocupado com cor de roupa pra crianças. talvez nem todas elas usassem vestido, mas ainda rolava uma certa neutralidade, nas cores especialmente.

aí veio a 2ª guerra, e as mulheres assumiram os lugares deixados pelos homens que foram lutar. elas passam a trabalhar e a moda é influenciada pelas vestes militares e pelo guarda-roupa masculino. quando a guerra acaba e os hómi tudo volta, a bagunça precisa ser arrumada. os lugares de cada um na sociedade precisam ser reestabelecidos. e aí aparece dior com o new look - uma tendência de roupa de mulher que remete láááá ao século XIX, com cintura marcada, corset, saia armada e muita florzinha, muito cor-de-rosa, muita delicadeza. e esse vira o uniforme da mulher da classe média.

e é aí que certas cores, estampas e texturas passam a ser femininas. mas não se preocupa, gente, as feministas dos anos 60 tão chegando pra lidar com essa palhaçada. 


se durante a segunda guerra as mulheres mais uma vez tomaram posições sociais consideradas masculinas e assimilaram elementos do guarda-roupa dos homens, o pós segunda guerra chegou botando fim à bagunça. dior lança seu new look e certas silhuetas, cores e estampas passam a ser definitivamente consideradas femininas. crianças são ensinadas desde cedo: se você é menina, você se vestirá como a mamãe, se é menino, como o papai.

o problema de estender esse tipo de dinâmica social também ao vestuário das crianças é que elas precisam, independente de gênero, se movimentar, brincar, correr e experimentar a vida fisicamente de uma maneira que certas roupas femininas não permitem. e esse era um dos posicionamentos da onda feminista que começou nos anos 60: foram essas mulheres que trouxeram de volta uma moda infantil sem gênero, focada em mobilidade e na ideia de que se meninas e meninos se vestem do mesmo jeito, todos sentem que tem as mesmas liberdades e possibilidades. roupa é, desde sempre, também uma ferramenta de empoderamento - até pra crianças. e foi assim que a ideia de uma cor específica pra cada gênero caiu nos 60 e 70.

a moda infantil se manteve neutra até meados dos anos 80 - quando a tecnologia de ultrassom avançou nitidamente e os pais passaram a saber com bastante antecedência o sexo de seu bebê. saber com antecedência significa que as lojas poderiam passar a focar seu marketing em convencer as pessoas a montarem seu enxoval cada vez mais cedo, e os lojistas voltaram a vender mercadorias específicas para crianças do sexo feminino e masculino. e além de roupinhas, agora a gente tava comprando berço, almofadinha, brinquedo, decoração - tudo de um jeito se for menina, de outro se for menino.

hoje a gente tá até a cabeça mergulhados numa sociedade que divide crianças por gênero. até kinder ovo é separado em "pra menina" e "pra menino" - porque quanto mais se individualiza um produto, mais se vende.

(mas sejamos honestos: quer saber se o brinquedo é de menino ou de menina? muito simples - ele serve pra dar prazer sexual? se sim, é um brinquedo apenas pra adultos. se não, é de menino E de menina).

EM TEMPO: a adorável princesa da foto no início do texto é franklin roosevelt. toma essa, masculinidade.


tudo isso que eu contei eu aprendi nesse livro aqui, ó: pink and blue: telling theboys from the girls in america

as imagens eu peguei daqui ou do google.

Um comentário:

Anne Regina disse...

ótimo post melody! tapa na cara da sociedade!